Visão do Inferno

Lá no fundo, uma caverna cheia de escuridão, tristeza e horror. Ao entrar nela, senti como que um manto ao redor de mim, de maneira que, embora eu me encostasse em alguma coisa, em nada chegava a tocar. Era como se eu estivesse invisível, pelo Manto Sagrado que é o Santo Rosário.

Ouvi um barulho como de vento impetuoso, ao abrir uma porta velha rangendo. Aproximamo-nos de uma segunda caverna, que parecia estar dentro de outra caverna da grande boca. Como numa onda de vento, passaram labaredas cheias de faíscas de fogo. Senti no rosto e no corpo um forte calor, como se estivesse próxima a um forno aceso.

Daquela entrada, vi um precipício, era apenas uma pequena beirada dos outros que se encontravam abaixo, e de lá do fundo vi subindo uma fumaça, como nuvens de espesso fumo, com cheiro horrível. Senti ânsia de vômito. São Miguel me puxou para perto dele. Aquela nuvem passou e São Miguel disse: Escuta!

Vi subindo outra labareda, de cheiro bem mais forte e ouvi urros tão estridentes que pareciam me despedaçar. São Miguel disse que Satanás sabia que estávamos lá; diante da ação de Deus ele se contorce todo, porque nada pode contra o Senhor. É desejo de Deus que o mundo tenha conhecimento do que Satanás está preparando para seus súditos que em nome dele se espalham pelo mundo. Vendo que eu me sentia como que apavorada, São Miguel disse-me: Não tenhas medo.

Perguntei: “Será que posso ver a partir daqui, sem avançar mais?” Respondeu: Sim. Verás apenas o que Deus permitiu.

Lá, bem no fundo, eu os vi, como se estivesse bem perto de mim, sem que eles não me vissem. Vi várias pessoas sendo despedaçadas, com muita violência. Os demônios agiam como animais famintos. A cada pessoa que chegava, era um “novo prato”. Os pecadores ficavam juntos com os demônios, que bramiam e uivavam como cães furiosos, proferindo terríveis blasfêmias contra Deus. Vi pecadores sendo atormentados por penas de danos cometidos por terem perdido tantos e tão grandes bens espirituais, que poderiam ter alcançado. Eram cortados, esquartejados, queimados, feito monstros, numa infelicidade sem pausa, por terem perdido a companhia amabilíssima de Jesus Cristo e de sua Mãe, bem como dos anjos e dos santos. Atormentados pelo fogo devorador que nunca termina e sempre recomeça. Perderam os deleites inefáveis de todos os sentidos, que no Céu são a alegria de todos os bem-aventurados. Sem a paz interior, uivavam da maneira mais estridente. Perdidos os dons e graças divinas, perdida a honra de filhos de Deus, perdido o último fim, o sumo bem, a felicidade eterna, para os quais foram criados, perderam tudo e tornaram-se fétidos monstros.
Só não perderam a vida, para poderem sentir e lamentar tudo o que perderam por toda a eternidade.

Gritos, alaridos, ranger de dentes...

Eles diziam: “pela minha culpa e livre vontade” (reconhece o pecador, no inferno) perdi para sempre o meu Deus, meu sumo bem. Por causa dos meus sonhos, por coisas passageiras, perdi o Reino dos Céus, que seria a minha eterna bem-aventurança, para me sepultar para sempre aqui no inferno!

De lá eles continuavam gritando: “Escolhi o tormento eterno, abandonei a Glória. Escolhi a maldição de Deus, em lugar de sua bênção. Ao convívio de Jesus Cristo, dos Santos e dos Anjos, preferi a companhia dos demônios…”

Amparada por São Miguel, escutei um estrondo. Ruídos. Risadas. Barulho de chamas… Avistei um mar de fogo, como se fossem lavas de vulcão expelindo brasas. Pessoas semelhantes a carvões acesos: olhos, nariz, cabeça, cabelos, totalmente em chamas. Demônios, de aparência horrenda, se viravam e se reviravam do avesso, mostrando as entranhas tomadas de vermes em forma de cobras. A cena mais nojenta e fétida era vê-los lançando as garras sobre os pecadores, atormentando-os pelos cinco sentidos, lançando-os no abismo em chamas, enfiando-lhes pelos ouvidos cobras acesas. Devorados pelo fogo, eram jogados em camas ardentes de odor insuportável, onde tinham que permanecer por toda a eternidade... respirando fogo, tocando no fogo, comendo e bebendo fogo, eles mesmos transformados inteiramente em vivas chamas: ouvidos, língua, garganta, peito, coração, entranhas, pés, mãos, tudo a arder, em fogo escuro, fedorento e fortíssimo, totalmente diferente do fogo daqui da terra!

As línguas de fogo dos demônios, tais como serpentes, atingiam de cheio os membros dos condenados, enroscando-os e provocando ruído comparável à fúria de ventos tempestuosos. Lá, todos que chegam são atormentados pela visão horrível dos demônios, e seus ouvidos atormentados por intermináveis maldições, blasfêmias e berreiros, por causa dos prazeres e gostos ilícitos que no mundo viveram; são castigados pela sede e fome, a língua torturada pelo pior fel inimaginável.

Notei pessoas a sofrerem horrivelmente pela recordação dos prazeres passados, iradas contra si mesmas, iradas contra Deus, contra os demônios, contra outros condenados, antigos companheiros, dilacerando-se, cortando-se, mordendo-se uns aos outros. Mulheres sendo decapitadas, decepadas pelas barras de fogo; os dragões infernais enfiando-lhes na vagina algo parecido a punhais em brasa. Mulheres e homens que no mundo viveram no adultério, ali se reencontraram e se atormentavam ainda mais que os próprios demônios.

De repente, outro mar de fogo e vozes desesperadoras vomitando as piores maldições:
Malditos, malditos os meus pais, porque não me deram a verdadeira educação! Maldito aquele Padre, que me absolveu sem prova de conversão da minha parte! Maldito, porque me enganou, me deixou no desvio e me causou a condenação. Maldito aquele ímpio que me perverteu, aquele escandaloso que com seu mau exemplo me ensinou a pecar! Maldito o meu anjo da guarda, que não me guardou! Malditos os santos e os anjos, que não me valeram! Malditos os sacramentos da Igreja, que não me serviram e de nada adiantaram! Maldito Deus! … Maldito…
São Miguel interveio: Cala-te, desgraçado!

A horrível voz, porém, prosseguiu: Não posso! Maldita a Mãe de Deus, Maria Santíssima, porque não pediu por mim!

Vi todos os condenados em prisão perpétua, fumaça e fogo pelos olhos, ruídos ensurdecedores, tormentas, e mais e mais blasfêmias... Para os que se deixaram prender pelos bens e vaidades terrenas, não existe ali nenhum momento de alívio: um dia é tão terrível como mil anos.

Notei distintamente que estavam sendo preparados outros leitos para pessoas que ainda vivem na Terra; para cada pecado mortal cometido, os demônios traziam outros tantos feixes de lenha.

Vi mulheres e também homens... Cabeças horríveis, lançando fogo de todos os lados... Olhos saíam para fora e voltavam... Línguas se espichavam e se encolhiam de modo inexplicável... Um ser parecido a um roedor, que girava entrando dentro daquela cabeça que explodia em mil pedaços de fogo (carne em fogo!).

Era a consciência atormentada e a gritar:
Ai de mim! Onde estou? Lá se foi o meu tempo. Tudo passou, com o mundo. Tudo fugiu como sombra. Os divertimentos se acabaram. Os prazeres, as riquezas, as honras desapareceram. Tudo agora reduzido a nada! Ai de mim – Fui um louco, completamente cego! A Confissão, os Sacramentos, a oração... Como me deixei desenganar! De tudo abusei.

Avistei outra nuvem escura que saía de uma fenda, no meio daquele fogaréu, que emitia labaredas tão fortes que, à medida em que avançava e se aproximava, tudo consumia. Senti-me puxada para trás de uma pedra grande, lodosa e quente. Assustada, olhei para São Miguel, que me disse:

“Lúcifer está a caminho da Terra. Ele tem projeto de destruir o mundo e confundir o povo de Deus, só para ter com que se divertir aqui no inferno. Para ele, essas murmurações e esse barulho são o que ele chama de melodia para seus ouvidos. Os humanos devem ter conhecimento das verdades eternas. E uma delas é a existência deste lugar, onde a Justa Justiça Divina pune os pecadores e os desobedientes. Agora, vamos voltar, porque a hora é grave para o mundo. Ai de quem não cuidar de salvar sua alma. Eu, Miguel de Deus, te dou a paz.”

Entre estas visões há outras horríveis que não posso mencionar. Naquele dia fiquei tão apreensiva com tudo o que vi, que nem sabia como agir. Os meus pecados e o medo de ir novamente àquele lugar me faziam ouvir de novo e nitidamente aqueles gritos de maldição total. Fiz esta oração, inspirada pelo Espírito Santo:

“Oh minha Mãe, ajudai-me! Eu são sabia o que é o inferno. Vivia cega de tudo, nas maiores misérias. Agora, porém, estou sabendo. Estou resolvida e quero me salvar, minha Mãe Silenciosa. Antes morrer que ofender ao meu Deus. Ajudai-me, pois, Senhora, e não permitais que eu chegue a odiar-vos e a vos maldizer para sempre no inferno. Antes, livrai-me de todo pecado, dado que somente ele me pode condenar ao inferno. De vós espero as graças que me são necessárias para fazer uma boa confissão, emendar-me de toda culpa e dar-me toda a Deus.”

A partir de então, aumentei minhas orações. Continuamos fazendo a penitência pedida na caminhada até a santa Cruz. Lá, Nossa Senhora, junto com seu Filho, vinha anunciar os acontecimento e pedir conversão.

Levou muito tempo para que eu me esquecesse um pouco daquelas visões horríveis mencionadas nas quais Jesus me ditou vários ensinamentos, que já foram transmitidos em várias partes do mundo, mas foram esquecidos e não valorizados. Por este motivo, Jesus e Nossa Senhora estão novamente a lembrá-los, porque, embora não sejam ensinamentos novos, representam avisos extremamente importantes para a salvação de todos.

Lembro-me também do empenho de um Papa, de Bispos e de Padres no inferno, ajudando Satanás a realizar o plano diabólico pela destruição da Igreja dos nossos dias, perdição eterna de incontáveis almas, causando fusão de muitas seitas e crenças, adoração ao maligno na Casa de Deus com a abolição da Eucaristia – sacrifício perpétuo – e abandono da Verdade no mundo, em troca dos sofrimentos no inferno...

Notei a existência de uma grande teia de aranha estendida no mundo e a maioria da população já enleada e presa, especialmente Padres dos nossos dias, os quais representam como peças fundamentais nas mãos de Lúcifer para promover a desobediência ao Papa e levar o povo a cair em armadilhas. Cientes de que pouco tempo lhes resta, eles trabalham incansavelmente para levar o mundo inteiro, isto é, todos os seres humanos para o inferno, onde os mais brutos sofrimentos os esperam.

Mas, o mais arrasador é a guilhotina, que se parece a uma cachoeira de fogo abrasador, reservada para os Padres, fiéis de Lúcifer aqui na Terra que a eles servem e nada sabem.                                  

Depois desses dias, fiquei um pouco enferma. Muitas dores. Perseguição. Queria já estar com Deus o tempo todo. Parecia que já não havia lugar para mim neste mundo.          

Tinha sede de Deus. Só Deus era o meu alimento, a minha fortaleza, a minha vida. Continuamos a fazer a caminhada até a Cruz, por vários domingos. Esta explicação sobre a caminhada já se encontra explicada na apostila. Durante esse tempo, Jesus vinha à minha casa todas as tardinhas e me explicava muitas coisas. Ele se apresentava chorando e me mostrava seu Coração ardendo de amor, sendo ferido cruelmente pelos que Ele tanto ama!

Ele me apresentava suas chagas abertas e estendia as mãos doloridas, para que eu as beijasse.  E em seguida desaparecia... Oh, como eu gostaria de poder reparar tanto sofrimento causado ao meu Senhor pelos pecadores. Mas Ele apenas dizia: “Muito me conforta o Coração este teu desejo de reparar as minhas dores recebidas dos homens. Tu, minha filha, apenas ama-me. Não demora, terás todas as bênçãos e recompensas.”

Durante a semana, como acabei de dizer, Jesus vinha, pela tarde, e me contava tantas histórias, chorava devido à ingratidão humana, transmitia-me nova Mensagem, me abençoava e desaparecia. De madrugada, Nossa Senhora vinha acompanhada de Anjos e, juntos, recitávamos o Ofício da Imaculada Conceição. Outras vezes vinha Jesus Eucarístico, circundado de Anjos e santos e da própria Celeste Mãe. Todos nós nos prostrávamos em adoração a Jesus. Cada dia de forma diferente.

Numa tarde de sexta-feira, estava eu sentada no pequenino jardim de casa, a recitar o Terço, quando avistei no céu a divina Face de Jesus. De linda e perfeita, foi-se transformando em face de dores. Espontaneamente comecei a chorar e dizer: Que fiz, para ter que vê-lo assim, neste estado? A face toda ensangüentada... A barba arrancada entre o queixo e a boca, como se faltasse pedaço de carne... Gengiva e dentes à mostra... Olhos inchados e roxeados... Sangue entre os cabelos, a escorrer pela testa...

Muitos espinhos na cabeça... Entre os cabelos, um enorme espinho cujas extremidades atingiam os dois olhos... Quanta dor em minha alma, em meu coração, por ver meu Senhor daquela forma! Pranto entrecortado de soluços tomou conta do meu interior e eu nem sabia o que dizer.

Vagarosamente, com voz quase imperceptível, Jesus sussurrou: “Este é o estado da minha Face, impressa nas almas, ultrajada pelos crimes e maldades de todos os que afastam e expulsam Deus de suas vidas. Por este motivo, peço-te, pequena alma, traça quantas vezes puderes o Sinal da Cruz sobre ti, e o poder da Santíssima Trindade te envolverá e te transformará. Eu te abençôo e te conservo sempre diante dos meus olhos.”