Sobre a firmeza do propósito de nunca mais pecar

Todo cristão, para bem viver, deve formar na sua alma um firmíssimo propósito de nunca mais pecar; antes perder os seus bens, a sua fama, a sua própria vida do que tornar a ofender a Deus.  Este propósito, esta resolução deve ser eficaz e é o principal fundamento da Vida Espiritual. Com esta resolução é que se conserva a graça e amizade de Deus, o direito ao Reino dos Céus; esta resolução é que torna os homens filhos de Deus, templos do Espírito Santo, os membros de Jesus Cristo, como tais participantes dos bens da Igreja.

Enquanto a alma conserva este firmíssimo propósito, esta resolução eficaz é exata em estado de salvação; mas se este lhe faltar, logo será riscado do Livro da Vida e escrita no Livro da Morte Eterna, está em estado de condenação.

O ser da vida espiritual consiste na Caridade: ora, a caridade é amar a Deus sobre todas as coisas. Logo, quem assim ama a Deus deve aborrecer o pecado, sobretudo, e não há de pecar, não há de ofender a Deus por coisa alguma deste mundo.

Nesta resolução, os Santos Mártires é que se deixaram padecer tantos e tão horrorosos tormentos: eram assados vivos, eram esfolados, eram arrastados, eram despedaçados, só para não cometer um pecado mortal.  Antes, preferiram passar por todos os tormentos do mundo do que estarem um só instante fora da graça e amizade de Deus.

Assim, foram três mães que, tendo cada uma sete filhos e vendo martirizá-los e despedaçá-los, não desmaiaram: antes, pelo contrário, os animaram a morrer pela fé e obediência a Deus, tal era também a resolução desses homens a quem fala São Jerônimo, e diz São Jerônimo que os tiranos o quiseram fazer pecar forçadamente e, que para esse fim o fizeram deitar de costas, despojado de seus vestidos, numa cama branda em sombra das árvores de um ameno jardim, atando-lhe com certas ligaduras os pés e as mãos para que não pudesse fugir nem se defender.  Feito isto, introduziram ali uma mulher mundana, bem adornada e asseada, a qual empregou todos os meios para vencer a virtude e a constância destes homens. Que deviam eles fazer como dolorosos soldados de Jesus Cristo? Que meio deveriam tomar para esta tão grande desonra, estando eles nus e ligados de mão e pés? Ali não lhes faltou a virtude do céu, nem a assistência do Espírito Santo que, para defendê-los do presente perigo, o inspirou o que fizesse: e fez uma coisa nova que jamais se viu: no mundo, isto é, teve tanto temor de Deus e ódio ao pecado, que chegou a cortar a própria língua com os dentes e cuspiu-a nacara dessa mulher depravada, a qual se espantou com tal acontecimento e fugiu dele.

Isto é bastante para que conheçais quanto os Santos se aborreciam de um só pecado mortal. E que fazeis vós? Alguns de vós, não tendo recato nenhum, e nem resolução nem propósito, até procurais ocasiões de pecar, muitas vezes andais a dar largos passos para o inferno. Por toda parte não se observa sendo namoricos e pouca vergonha: até nos lugares sagrados se tem visto e observado os maiores escândalos. Sabe-se muito bem que o pecado é que leva o pecador a repreender o confessor, que é coisa oposta ao Evangelho, e ainda se torna a pecar mesmo por querer, e com plena advertência! O que é isto? Quem assim é ou pratica, não tem propósito nem temor a Deus, nem resolução; perdeu a fé ou o juízo, pouco lhe importa a sua salvação: e tanto caso faz do céu como de nada... Pois que teima é essa?

À vista de tantos desenganos e de tantos benefícios divinos, ainda não queres deixar de pecar, esta teima é teima do inferno... Ai do mundo! O mundo vai perdido, vive perdido e não há quem possa dar remédio a tão grandes males!  Que peguem essas pessoas que nunca assistiram uma Missa, que nunca fizeram uma Confissão Geral, que nunca freqüentaram os Sacramentos, não admiram mais que pequem. Aqueles que têm tudo isto, e que agora ainda estão piores do que no princípio, isto não sei como Deus o poderá sofrer: nem sei que remédio se há de dar a estas almas, porque já lhes aplicaram os remédios mais eficazes; a Missa, a Confissão Geral e a frequência dos Sacramentos. Almas ingratas a tantos benefícios divinos, almas infelizes, a vossa salvação é de todas a mais arriscada! Ora, pois, arrependei-vos agora e nunca mais torneis a pecar. Emendai-vos de tudo quanto for culpa e tomais uma resolução eficaz de nunca mais pecar nem ofender a Deus, ainda que percais os bens, a fama, ou a vida. Finalmente, confessai-vos com esta disposição, e então alcançareis o perdão de Deus.