Pecados mal confessados

É certo que o demônio caça muitas almas na Confissão, fazendo com que o penitente cale seus pecados. Além dos pecados omitidos na Confissão, há outros três laços com que ele arrasta almas para o inferno:

- Pecado mal confessado,
- Pecado desculpado,
- Pecado declarado sem arrependimento.

Pecado mal confessado é o laço mais perigoso, porque é laço oculto. A pessoa pensa que fez boa Confissão, quando, na verdade, cometeu uma irreverência, um sacrilégio. Quem, conscientemente cala pecados graves na Confissão, sabe muito bem que continua preso, enlaçado nas garras do inimigo. Quem declara ao Confessor todos os pecados, mas de maneira incompleta, sem explicação das circunstâncias agravantes (assim será a acusação do demônio no Tribunal divino!), erradamente persuade-se de ter feito boa Confissão: assim enganado, mais seguro fica no laço de Satanás. É necessário, pois, confessar bem os pecados como eles são – obras, palavras, maus desejos, maus pensamentos consentidos - e não omitir as circunstâncias que os fazem mudar de espécie e os tornam mais graves.

De todo o mal feito se deve dar ao Confessor pleno conhecimento, para que ele possa julgar e dar a sentença; quando não, é o mesmo que calar tudo e nada dizer; então, nem os pecados ficam perdoados, nem é válida essa confissão. Por isto, eu disse que este mau procedimento, essa confissão parcial, é o laço mais perigoso e que mais arrasta almas para o inferno. Perdem-se mais almas por pecados mal confessados do que por pecados conscientemente e de propósitos calados.

Os penitentes são uns na Confissão, e são outros, fora da Confissão.

Na Confissão parecem uns santos e inocentes; fora da Confissão não passam de verdadeiros e não pequenos pecadores... De sorte que a maior parte dessas confissões são iguais à de Aarão. Explico: Durante a caminhada do povo pelo deserto, Moisés costumava subir a montanha e ali se demorar na presença do Senhor. Numa dessas ocasiões o povo pediu a Aarão que fizesse para eles um deus que os guiasse pelo deserto (Êxodo 32,1-35). Diante deste pedido tão absurdo e ofensivo a Deus, que deveria fazer Aarão? – Deveria chamar, repreender, pegar em armas e eliminar aqueles idólatras! Mas, ao contrário, ele atendeu ao pedido do povo. Apesar de ser Sumo Sacerdote, irmão de Moisés, chefe condutor do povo, que guiava em nome de Deus, sem pensar no escândalo para toda aquela gente, mandou recolher todo o ouro que houvesse, fabricou um bezerro, que era o deus que lhe pediam, erigiu um altar onde colocou a estátua. As pessoas se aproximavam e declaravam em voz alta: Aqui está, ó israelitas, o Deus que te tirou do Egito! E Aarão mandou um pregoeiro convocar o povo: Amanhã haverá uma festa em honra do Senhor. Venham todos. No dia seguinte, adoraram o bezerro e lhe ofereceram sacrifício, como se fora Deus verdadeiro...

Que vos parece, meus irmãos? Haverá crime mais horroroso do que o deste Sacerdote em consentir tais coisas? Não deveria dar mil vidas, se as tivera, para não permitir idolatria? Ouve agora como ele se desculpou. Ao clarear do dia, Moisés desceu e, ao observar o espetáculo, derrubou por terra o falso deus e o reduziu a pó. E disse ao seu irmão, que causara tanto mal: “Que fez esse povo, para lhe causares tão grande escândalo e seres a causa de tão grande pecado?”

Aarão procurou se desculpar, se esquivar à responsabilidade, com a explicação: “Nós não sabemos do que é feito o deus de Moisés, por isso faça-nos deuses que nos guiem por este deserto. Eu, porém lhes disse: Quem de vós tendes ouro?  Eles me trouxeram, eu o coloquei no fogo e de lá do fogo saiu este bezerro” (Êxodo 32,21-24).

À vista de tal confissão, parece ser uma obra santa e admirável, porque arrojar ouro ao fogo, deveria ser para reduzi-lo a cinzas e tirar esta idolatria do povo.  E dizer ele que do fogo saiu aquele Bezerro!   Temos um milagre extraordinário!  Porém, não é assim: Ele mandou tirar o ouro das orelhas e ordenou que lhe trouxessem – ele mesmo fez o bezerro, e erigiu o altar em que foi colocado.  Ele mesmo mandou pregar a sua festividade e deu àquele bezerro o nome de Senhor. Tal sentido que só a Deus se podia dar.  Foi isso o que ele praticou, porém na sua confissão, tudo omitiu, dizendo somente o que lhe dava a reputação de santo.

Ai está Aarão – santo na Confissão, péssimo mau exemplo fora da Confissão. Que me dizes? Não são assim as confissões de muitos pecadores? Eu penso que sim. Eu vejo por esse mundo inúmeros pecadores habituados no crime e na maldade. Vemos praguejadores, amaldiçoadores, blasfemos, bêbados, soberbos, irados, invejosos, vingativos, profanadores do dia santo, escarnecedores dos atos de piedade. Nesse mundo, tudo são crimes e maldades!

Os Confessores sabem que não devem absolver o réu que não dê prova de sincero esforço de emenda. E não é de se presumir que eles queiram ir para o inferno por via dos penitentes; porém tudo passa.

O que acontece é que raríssimas pessoas se confessam como se deve. Multidões se confessam mal: não explicam claramente como são os pecados, apenas se acusam de algumas sombras de pecado ou, até, chegam a pintá-los como virtude. É o que fez Aarão.

Grandes iras e graves ódios são declarados como pequenas impaciências ou meros excessos. Péssimos atos de impureza, como se fossem apenas pensamentos. De graves omissões do dever de estado e de outros gravíssimos pecados nem se faz menção. Quase ninguém abre totalmente ao Confessor o coração.

Até alguém diz que não é preciso dizer todos os pecados, e nem como foram.

Quantas vezes, porém, as circunstâncias diminuem ou aumentam a gravidade do crime! Ah! Bem está o demônio com tais confissões e com tais penitentes. Desenganai-vos, quero dizer, libertai-vos do engano e cegueira a este respeito.

No ato da Confissão, o penitente deve declarar os pecados com toda a exatidão e clareza, sem piedade de si mesmo. Se tiver dó de se acusar assim, o inimigo demônio não terá dó de acusá-lo no último Tribunal.

Tirai proveito destes Ensinamentos, se quereis salvar vossa alma.