O Santíssimo Sacramento

Considera pecador, que Jesus Cristo nosso amável Redentor, estando para deixar este mundo e voltar para seu Eterno Pai, vendo que ficaríamos sozinhos neste vale de lágrimas cheio de trabalhos e aflições, não quis ausentar-se nós. Não quis ausentar-se de nós nem um só momento e, para isto, em seu infinito amor deixou-se ficar entre nós no Santíssimo Sacramento, morando conosco, dando-se a nós, tão real como está no Céu.

Oh amor imenso! Amor extremo! Precisamente na noite em que seria entregue aos verdugos para ser arrastado até o Calvário, quando estava para receber da humanidade as piores demonstrações de desprezo e ingratidão, ele instituiu este Sacramento de amor.     

Na última ceia todos sentados ao redor da grande mesa, Jesus diz aos seus discípulos: “Vou deixar este mundo, mas não me apartarei de vós. Como está escrito e é necessário, vou padecer e morrer por vós. Mas não fiqueis tristes, porque a minha morte há de ser a vossa vida.”

Tomai. Comei. Bebei. Neste Sacramento vos deixo como alimento tudo quanto vos posso deixar: a mim mesmo inteiramente - meu corpo, minha alma, minha divindade. Quem comer a minha Carne e beber o meu Sangue viverá eternamente. Este é o meio que estabeleço e deixo à vossa disposição, para eu ficar sempre convosco.

Por esta sagrada instituição de Sacramento inimaginável, demonstração do insuperável poder e infinito amor de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo permanece em nossos Sacrários dia e noite, para nos falar ao coração, ouvir nossas petições, acudir nossas necessidades e nos conceder divinas graças. Como amigo, como pai, como esposo, está continuamente esperando que o visitemos, para que nos possa abençoar. Sempre junto de nós, para nos consolar e santificar. Nosso bom Jesus está conosco, enriquecido com todas as graças sobrenaturais, que deseja conceder a cada um em particular.

É neste Sacramento onde as almas justas se enriquecem de graças, recebem celestiais consolações e se abrasam cada vez mais no amor divino. Na verdade, esse divino Sacramento é a fonte de todas as graças, de todas as riquezas do céu, porque nele está Deus, Deus para se dar todo a nós.
Que mais se pode dizer?

Deus está nesse divino Sacramento para se entregar todo a nós e ser todo nosso. Oh Sacramento de amor! Oh fonte das riquezas e das graças do céu! Gostaria de agora poder receber-vos. Minha alma vos deseja e meu coração suspira por vós. Por meio desse Santíssimo Sacramento, dignamente recebido, crescem todas as virtudes e fortifica-se a alma contra os vícios. Os fiéis que vão comungar dignamente saem da sagrada comunhão como leões, respiram chamas de fogo e causam pavor a todo o inferno! Pela sagrada comunhão se reprimem todas as paixões e se obtém remédio contra todas as misérias espirituais. A sagrada comunhão piedosamente recebida é penhor seguro de vitória contra todo mal. Uma só vez bem recebida, tem poder de santificar definitivamente uma alma, porquanto quem comunga se torna participante da santidade daquele que é recebido, Nosso Senhor Jesus, ao qual se une e se incorpora: intimamente unidos: Jesus e o comungante, o comungante e Jesus...

Tu, oh pecador, que freqüentemente comungas, que tens a dizer? Que comunhões têm sido as tuas? Já recebeste e sentiste o fruto de uma comunhão dignamente recebida? Ainda não sente no coração o impulso do amor divino? Ainda não morreste para o mundo e para ti mesmo? Ainda persistem teus maus costumes? Podes imaginar, quantos sacrilégios terás cometido, pelas vezes que foste à comunhão rotineiramente, friamente, sem mínima devoção e respeito, e permaneceste longe de Deus como antes?

Comungar assim, sem compromisso espiritual, tanto vale comungar uma vez ou cem vezes: a vida continua a mesma. Teme e treme, ó criatura, pela ousadia de chegar à sagrada mesa sem as devidas disposições. Lembra-te do que diz o apóstolo Paulo: Quem come o Corpo do Senhor e bebe indignamente o seu Sangue, come e bebe a própria condenação. Quem comunga sem as disposições essenciais comete maior crime que os judeus que mataram Jesus Cristo, posto que estes não sabiam o que estavam fazendo, por não reconhecerem Jesus como Deus. Pelo contrário, o cristão que comunga despreparado comete sacrilégio e merece castigo mais rigoroso que os judeus.

Cristão descuidado, tu que só comungas uma vez cada ano, e ainda por obrigação, dize-me, quantas vezes já recebeste dignamente Jesus Cristo?  Talvez nunca, porque até hoje nada fizeste para verdadeira conversão. Vais para a comunhão só uma vez a cada ano, sem fazer caso da doutrina, sem propósito de melhorar, sem arrependimento, sem humildade, sem respeito nem temor... Tudo isso significa sacrilégio, irreverência a Jesus Cristo presente na hóstia santa. Para uma pessoa assim, tanto faz receber Jesus e receber nada e ninguém! Mal acabas de comungar, já sai pela porta rindo de quem fica mais um pouco e respondes a quem pergunta: ― De onde vens? “Eu fui desobrigar-me.”

Mais “obrigado” estás agora do que antes. Mais obrigado e sujeito ao demônio, pelo peso de quatro pecados mortais: confissão nula, comunhão sacrílega, e a falta de cumprimento dos deveres da Igreja e ainda mais, uma excomunhão maior por não cumprires com os preceitos.

Que atrevimento se observa por toda parte! Causa horror ver a mesa de Nosso Senhor Jesus Cristo cercada de ladras e ladrões, de raivosos e praguejadores, de amigados e concubinas, de incrédulos e escandalosos... Quantos comungando sem temor e sem vergonha! Que religião é esta? Ali está Deus, ou não está? Acreditas, ou não acreditas? Se não acreditas, não ouses aproximar-te. Não sejas hipócrita, impostor, falsário. Se acreditas, cuida de estar em condição espiritual, e não sejas pior que Judas Iscariotes. Houve santos que tremiam, desmaiavam, caiam por terra antes de chegarem à mesa sagrada; e tu, pecador, com todo esse atrevimento? O grande São João Batista se declarava indigno de desamarrar a correia das sandálias de Jesus, e tu o recebes com coração pecaminoso, em casa já possuída pelo demônio, para ele o calcar aos seus pés.

Lemos na Santa Bíblia que a Arca do Testamento era figura deste manjar divino e, por que Oza tocou nela indignamente, foi castigado por Deus com morte repentina. E tu, não temes o castigo eterno de Deus, quando, mais que tocar em Jesus, o acolhes em tua casa desmazelada, emporcalhada?  Nesta situação condenável, oh pecador, não te atrevas a receber o Santo dos Santos, Nosso Senhor Jesus...